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Assim como no Brasil, preocupações com o clima são realidade dos viticultores franceses

Mesmo com a produção de excelentes vinhos, viticultores compartilham queda na produtividade e alterações na data da colheita, provocadas pelas adversidades climáticas

 


Estiagem, temperaturas altas demais, chuva, granizo e geada no mesmo ciclo não são imprevistos enfrentados somente pelos produtores gaúchos de uva. Na França, berço de alguns dos melhores vinhos do mundo, a produção da bebida teve queda de 23%, em 2021, devido às geadas de primavera, segundo o Ministério da Agricultura. Eventos inesperados, como tempestades de granizo, chuvas intensas e altas temperaturas, também preocupam os viticultores franceses. A apreensão crescente com as mudanças climáticas é discutida com o governo e entidades protetoras do setor.


“A preocupação com as mudanças climáticas é compartilhada por viticultores gaúchos, franceses e de todo o mundo. Assim como aqui, as safras lá têm sido de excelente qualidade, apesar das perdas consideráveis dos últimos três anos. O problema é que essas alterações, de temperatura, umidade e intempéries, podem interferir cada vez mais na produtividade e provocar uma diminuição no resultado final das colheitas das próximas décadas, e isso também vai afetar o mercado do vinho com um todo”, alerta Francisco Bino Lacerda, especialista em viticultura e representante técnico da Bioatlantis, empresa irlandesa de biotecnologia.


Em recente viagem técnica realizada pela Borgonha e Alsácia, duas das principais regiões vinícolas francesas, Bino visitou vinhedos, como o exclusivíssimo Domaine de la Romanée-Conti , produtor de um dos melhores e mais caros vinhos do mundo. Também participou de degustações e trocou experiências com sommeliers, vignerons (enólogos) e produtores. Nos parreirais, viu de perto o trabalho de poda que está encerrando nesse final de inverno europeu. O contraste entre a tradição e a tecnologia de ponta chamou a atenção do especialista da Bioatlantis.


“No manejo do solo, em alguns Domaines eles aram a terra com tração animal, do mesmo modo que 120 anos atrás. E têm uma preocupação enorme com aspectos pedológicos e geológicos. Por outro lado, é uma região de contrapontos. Em alguns vinhedos, investem em tecnologias e em moderníssimos equipamentos de  poda, desfolha e colheita dos parreirais”,  revela Bino. Ele destaca, ainda, o uso de insumos orgânicos, a realização de tarefas de acordo com o calendário lunar e a utilização da agricultura  biodinâmica, numa clara preocupação com a sustentabilidade e a preservação dos climats, que é o termo utilizado para expressar o Terroir de uma parcela da vinha. A Borgonha possui duas castas como principais, a Pinot Noir e a Chardonnay, e mais de 1000 climats, todos tombados como patrimônio da UNESCO, em 2015. E diz que os franceses priorizam, muito, um ótimo manejo do parreiral. “Por ser da área de viticultura, eu acredito muito no lema da Borgonha, de que o vinho de qualidade se faz primeiro na vinha”, acrescenta.


Assim como acontece em outras áreas profissionais, o conhecimento e a experiência adquiridos em uma viagem técnica deverão ter reflexos positivos no trabalho realizado por Francisco Bino em solo brasileiro. Com 16 anos de dedicação à viticultura, evita comparar a produção brasileira e a francesa, visto que têm climas, solos, relevos e são culturas diferentes. “São realidades distintas, manejos, castas e clones diferentes, cada região, na Serra, Campanha ou Nordeste tem as suas próprias especificidades e maneiras de trabalhar na viticultura. Essas observações nos oferecem a possibilidade de avaliarmos o nosso próprio trabalho, eu trago uma troca de conhecimento e mais aprendizado técnico para poder nos diferenciar como empresa e profissional em uma de nossas áreas de atuação no Brasil, que é a viticultura”, reitera.


O especialista lembra, ainda, que os produtores franceses – e suas vinhas – além de lutarem contra as mudanças climáticas atuais, sobreviveram a momentos históricos trágicos para vitivinicultura, como a Revolução Francesa, duas grandes guerras mundiais, a grande depressão e a filoxera, praga que dizimou grande parte dos vinhedos franceses por um período de quase 40 anos. “Isso nos ensina muito, a humildade é o maior aprendizado que se tem, especialmente na Borgonha, onde quando possível o proprietário do Domaine recebe o visitante. Eles trabalham com simplicidade e excelência e se empenham em passar uma boa impressão de tudo. Apesar desta região ter ganhado muitos status ao longo da história, o que é merecido, eles veem como importante destacar primeiramente seus vinhos, e não as pessoas, estas já são componentes da intervenção humana no termo Terroir ”.


Como orientação ao produtor, Francisco Bino ressalta que é preciso continuar se tecnificando cada vez mais, e preparar os vinhedos para as mudanças climáticas a cada ciclo. “Isso é uma realidade, a cada ano ou vamos ter geada, granizo, ou estiagem que pode se prolongar, então o vitivinicultor tem que investir nas vinhas ou em tecnologias que auxiliem na mitigação destas adversidades. A chave é se organizar para enfrentar essas intempéries previamente, quando possível e se tiver acesso à água, investir em irrigação e manejos de solo preservacionistas, respeitar a carência dos químicos e colaborar na interação homem-natureza.  Essa preocupação climática é realidade na Borgonha, em Bagé, ou na Serra Gaúcha, de certa forma estamos todos ligados. Até porque quando se trata de clima, o viticultor não tem vida fácil”, finaliza Bino.

 

 

Fotos: Francisco Bino

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